O jogo das caricas

Quando eu era miúdo os brinquedos eram muito menos sofisticados do que são hoje. Um carro eléctrico era ainda um luxo e o ActionMan, que tinha acabado de aparecer, tinha um preço proibitivo.
Naquele tempo entretínhamo-nos com objectos correntes e os brinquedos eram muitas vezes feitos na hora. Um dos mais marcantes da minha infância era um jogo de futebol, antepassado do Subbuteo, “fabricado” com caricas. O meu foi feito pelo Abel, supostamente um dos criados lá de casa como se dizia naquela época, que passava mais tempo a brincar comigo do que a trabalhar, o que lhe conferia um estatuto de privilégio.
Primeiro, precisávamos de juntar muitas caricas, que traziam antigamente no seu interior uma rodela de cortiça. Tentávamos tirar com uma faquinha as rodelas de duas tampas, com cuidado para que ficassem intactas. Juntavam-se, embrulhavam-se em papel branco e colocavam-se dentro de uma única tampa, a que estivesse menos dobrada. Ficava assim “cheia” e mais pesada, o que permitia depois remates mais certeiros. Com a ajuda de canetas de filtro pintavam-se as cores das camisolas dos clubes conhecidos e toda a operação se repetia até completarmos onze “jogadores” para cada equipa. Numa fase posterior, já mais “refinada”, recortávamos nos jornais desportivos as fotografias dos jogadores para as colar nas caricas e pintávamos as suas camisolas com as cores dos clubes respectivos.
O Abel tinha jeito para trabalhos manuais e com madeira, arame e um bocado de mosquiteiro velho que pediu à minha avó, fez duas balizas. Com dois paus de giz, que tirávamos da sala de aula que o meu pai tinha mandado construir para dar explicações, marcávamos o campo no chão do quintal.
Quanto à bola, também obedecia a um processo próprio de fabrico. Descobrimos, depois de experimentar vários tipos de bola, que aquela cujo tamanho e peso se adequava melhor aos nossos jogadores (o futebol já na altura era uma ciência) era a ponta de uma baqueta de xilofone, usualmente em plástico cor-de-rosa. Bastava-nos serrá-la, limá-la um pouco para não ficar com arestas e tínhamos assim o “esférico” ideal.
O Abel e eu tínhamos muitas equipas (Porto, Benfica, Sporting, Braga, CUF, Setúbal, Barreirense, Académica, Belenenses, Olhanense e outras) e aproveitávamos para fazer campeonatos, repetindo os jogos que se tinham disputado no campeonato português “verdadeiro” no fim-de-semana anterior.
Quando vim de Angola trouxe o jogo mas nunca mais lhe peguei porque sem o Abel aquela brincadeira tinha perdido a magia e o encanto.
Entretanto, com as sucessivas mudanças de casa, as caricas desapareceram. Um dia, vou fazer umas novas para ensinar o jogo ao Marcelo e aos meus sobrinhos, embora receie que qualquer jogo de computador lhes pareça mais aliciante.