Agitando as águas...

- o fim da paz – com a revolução chegou a luta armada a Luanda, o não poder ir brincar para o quintal pois “andavam aos tiros”, a partida, a recepção execrável dos retornados pelas suas próprias famílias e amigos;
- o fim de uma época – o tempo das colónias tinha que acabar, os povos tinham direito à sua independência mas tudo poderia ter sido feito de outra maneira;
- o fim de um país – os angolanos dizem-se felizes com a autodeterminação mas na actualidade, um dos países mais ricos do mundo vive em extrema pobreza, liderado por um ditador dono de uma fortuna incalculável;
- o fim de um sonho – para tantos que consideravam aquele país como seu, embora não tivessem lá nascido;
- o fim de uma identidade – para nós que lá nascemos e de lá fomos arrancados.
Hoje, 33 anos depois, a política não me interessa minimamente por muito redutora que esta minha posição possa parecer. Rosas, laranjas, vermelhos, azuis, verdes ou roxos, os políticos são sobretudo uma “cam(b)ada” de aproveitadores que um dia foram legalmente autorizados pelos seus eleitores a roubar até não poderem mais. Enquanto não encontram um poleiro à sua medida juram ser os mais honestos mas logo que se acomodam confortavelmente na poltrona esgravatam à sua volta até conseguirem comer a mais ínfima migalha. Isto claro, depois de já se terem banqueteado com os melhores nacos (carros, casas, viagens, etc).
Mas, voltando ao tema do dia, sempre ouvi e li ao longo da minha vida (recordo que não estava cá para presenciar) que o povo português viveu durante décadas na mais difícil opressão, tristeza e falta de condições mínimas de vida. Não duvido que tenha sido cruel e por isso todos os anos se homenageiam os heróis de Abril, revêem-se os mesmos filmes na televisão e entrevistam-se as mesmas pessoas que participaram de alguma forma nos acontecimentos.
À partida, a conclusão lógica seria: ainda bem que a revolução aconteceu porque o saldo foi positivo. Foi o fim da ligação a África mas trouxe-nos a liberdade, com tudo o que de bom e de mau veio com ela.
Mas contudo interrogo-me: como é que apesar de tudo isto os portugueses puderam eleger o Salazar como o maior de todos eles?
Memória curta ou saudades escondidas?